Início / Blog / Margem na prática

Margem na prática

Comissão, frete e imposto: a conta completa do produto no marketplace

Por Andressa Cunha · Publicado em 5 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Resposta direta

A margem real de um produto no marketplace é o preço de venda menos o custo da mercadoria, o frete pago pelo vendedor e tudo o que incide em percentual sobre o preço: comissão, imposto e custo de aquisição. Como esses percentuais incidem sobre o preço, e não sobre o custo, o markup simples superestima a margem.

Por que a margem do marketplace engana

Quem calcula preço com markup sobre o custo de compra parte de uma premissa errada: a de que as despesas da venda são proporcionais ao custo. No marketplace, a maior parte delas é proporcional ao preço. A comissão do canal, o imposto sobre a nota e boa parte do investimento em anúncios crescem junto com o preço de venda. O frete, por outro lado, costuma ser um valor fixo por unidade.

O resultado é que o mesmo markup produz margens muito diferentes conforme o canal, a faixa de preço e o peso do produto. Um item que parece rentável no DRE consolidado pode estar consumindo caixa em um canal específico.

A conta completa, linha a linha

O exemplo abaixo usa valores fictícios, apenas ilustrativos. Substitua pelas tarifas do seu contrato e pela alíquota efetiva do seu regime, que o seu contador confirma.

Linha Valor % do preço
Preço de venda R$ 150,00 100%
(−) Comissão do marketplace (16%) R$ 24,00 16%
(−) Imposto sobre a venda (8%) R$ 12,00 8%
(−) Frete pago pelo vendedor R$ 15,00 10%
= Sobra para pagar o produto R$ 99,00 66%
(−) Custo da mercadoria (CMV) R$ 60,00 40%
= Margem de contribuição R$ 39,00 26%

Repare na diferença entre as duas leituras. Olhando só o custo, o produto comprado por R$ 60,00 e vendido por R$ 150,00 parece deixar R$ 90,00, ou 60% do preço. Depois dos três descontos que acontecem antes de o dinheiro chegar ao caixa, sobram R$ 39,00: 26%. Ainda sem contar o custo de aquisição de clientes.

O erro do markup cego

Agora o mesmo produto, precificado com markup de 2 vezes sobre o custo (valores fictícios):

  • Preço de venda: R$ 120,00 (2 × R$ 60,00)
  • Comissão de 16%: R$ 19,20
  • Imposto de 8%: R$ 9,60
  • Frete: R$ 15,00
  • CMV: R$ 60,00

Sobram R$ 16,20, ou 13,5% do preço. Quem aplicou markup 2 esperava algo próximo de 50%. A diferença não aparece no pedido, aparece no fechamento do mês.

A fórmula do preço mínimo

O preço mínimo é o preço em que a margem de contribuição é zero: a venda paga o produto e as despesas variáveis, e não sobra nada. Abaixo dele, cada unidade vendida consome caixa.

Preço mínimo = (CMV + frete por unidade) ÷ [1 − (comissão % + imposto % + CAC %)]

Os custos em reais ficam no numerador. Os custos que incidem em percentual sobre o preço ficam no denominador. É por isso que não se chega ao preço certo somando percentuais ao custo.

Com os números fictícios do exemplo e um CAC de 5% do preço:

  • Numerador: R$ 60,00 + R$ 15,00 = R$ 75,00
  • Denominador: 1 − (0,16 + 0,08 + 0,05) = 0,71
  • Preço mínimo: R$ 75,00 ÷ 0,71 = R$ 105,63

O markup de 2 vezes, que levava a R$ 120,00, ficou acima do mínimo, mas com pouca folga para desconto ou campanha.

O mesmo produto em três canais

A consequência prática da fórmula é que não existe um preço mínimo por produto, e sim um por produto em cada canal. O exemplo abaixo mantém o CMV de R$ 60,00 e muda só as condições de venda (valores fictícios, apenas ilustrativos):

Canal Comissão Frete pago CAC Preço mínimo
Loja própria 3% (meio de pagamento) R$ 22,00 12% R$ 106,49
Marketplace A 16% R$ 15,00 5% R$ 105,63
Marketplace B 20% R$ 10,00 3% R$ 101,45

Em todos os casos o imposto fictício é de 8%. Repare que a loja própria, sem comissão de marketplace, não é automaticamente o canal mais barato: frete integral e investimento maior em mídia empurram o piso para cima. Já o marketplace com a comissão mais alta tem o menor preço mínimo, porque o frete subsidiado e o CAC baixo compensam.

É por isso que a decisão de preço, de mix e de canal precisa partir da mesma base: o custo completo por SKU e por canal. Sem ela, a empresa tende a cortar o canal errado ou a dar desconto justamente onde a margem já é a menor.

Do preço mínimo ao preço sugerido

Para chegar ao preço que entrega a margem desejada, basta incluir a margem-alvo no denominador:

Preço sugerido = (CMV + frete por unidade) ÷ [1 − (comissão % + imposto % + CAC % + margem-alvo %)]

Com margem-alvo de 15% (fictício): R$ 75,00 ÷ (1 − 0,44) = R$ 75,00 ÷ 0,56 = R$ 133,93.

Na prática, o preço de vitrine fica entre esses dois pontos:

  1. Preço mínimo: o piso. Nenhuma promoção ou regra automática de preço deveria cruzar essa linha sem aprovação.
  2. Preço sugerido: o preço que remunera a operação na margem que você definiu.
  3. Preço de mercado: o que a concorrência pratica. Se ele estiver abaixo do seu preço mínimo, o problema está no custo, no frete ou no canal, e não no preço.

Como aplicar no seu catálogo

  1. Monte a base por SKU e por canal. CMV atualizado pela última nota de compra, frete médio por faixa de peso e tarifa de cada canal.
  2. Use a alíquota efetiva, não a nominal. No Simples Nacional, por exemplo, a alíquota efetiva muda com a faixa de faturamento. Peça ao contador o percentual que você deve usar.
  3. Calcule o preço mínimo de cada combinação SKU × canal. O mesmo produto tem preços mínimos diferentes em canais diferentes.
  4. Compare com o preço praticado. Liste os SKUs abaixo do mínimo e ordene pelo volume vendido: é ali que o caixa está sendo consumido.
  5. Transforme em regra. Preço mínimo como trava no sistema de precificação e revisão sempre que tarifa, frete ou custo mudarem.

Erros comuns

  • Calcular comissão sobre o preço sem frete quando o canal cobra sobre o valor total pago pelo cliente. Confira no contrato qual é a base.
  • Ignorar a tarifa fixa por venda que alguns canais cobram em faixas de preço mais baixas. Ela entra no numerador, como o frete.
  • Usar CMV desatualizado. Um reajuste do fornecedor que não chega ao cadastro distorce todo o cálculo.
  • Olhar só a margem consolidada. A média esconde os SKUs e canais que operam abaixo do preço mínimo.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre markup e margem?

Markup é o multiplicador aplicado sobre o custo para chegar ao preço. Margem é quanto sobra do preço depois de descontar os custos. Como comissão e imposto incidem sobre o preço, o mesmo markup gera margens diferentes em cada canal.

O frete entra no preço mínimo?

Sim. O frete pago pelo vendedor é um custo por unidade e entra no numerador da fórmula, junto com o CMV. Se o canal cobra comissão também sobre o frete, isso entra no percentual de comissão.

Qual alíquota de imposto usar no cálculo?

A alíquota efetiva sobre a venda no seu regime tributário, e não a nominal da tabela. O contador responsável pela empresa informa o percentual correto para cada tipo de operação.

Com que frequência recalcular o preço mínimo?

Sempre que mudar o custo do produto, a tarifa do canal, a tabela de frete ou a alíquota. Em operações com muitos SKUs, o ideal é recalcular automaticamente a cada atualização de custo.

Quer ver essa conta nos seus SKUs?

O Diagnóstico de Margem aplica o método aos seus dados e entrega o mapa de margem e o preço mínimo por SKU e canal em 10 dias úteis, com painel opcional em até 3 semanas.

Ver o escopo do Diagnóstico

Continue lendo

Andressa CunhaEconomista e Controller · MBA Data Science e Analytics USP/Esalq. Controladoria de margem e precificação para e-commerce, distribuidoras e sellers de marketplace.