Início / Blog / Controladoria e dados

Controladoria e dados

BI para precificação dinâmica em autopeças: o que o estudo publicado na Revista E&S mostrou

Por Andressa Cunha · Publicado em 6 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Resposta direta

O estudo propõe um motor de precificação em BI para empresas de autopeças: dados centralizados, custo total por SKU e canal, preço mínimo e sugerido calculados automaticamente e painéis de margem. No caso analisado, 18,17% das operações tinham margem negativa, e a reanálise manual de 2 a 4 dias passou a ser diária.

O problema que o estudo enfrenta

Uma distribuidora de autopeças que vende em loja própria, em marketplaces e para oficinas precisa precificar milhares de itens ao mesmo tempo. Cada canal tem sua própria comissão, sua tabela de frete, suas tarifas fixas e um tratamento tributário que depende do destino e da operação. Quando qualquer uma dessas variáveis muda, o preço que era rentável ontem pode deixar de ser hoje.

Na maioria das empresas do setor, essa conta vive espalhada em planilhas isoladas: uma para custo, outra para comissão, outra para frete, outra para a tabela de preços de cada canal. Cada planilha está correta no seu próprio recorte. O problema é que ninguém enxerga o custo total de um SKU em um canal específico, e é exatamente nesse cruzamento que a margem se perde.

Esse é o ponto de partida do artigo "Business Intelligence para precificação dinâmica e margem estratégica em empresas de autopeças: proposta de aplicação", publicado na Revista Estratégias e Soluções (E&S) e derivado do meu trabalho de conclusão do MBA em Data Science e Analytics da USP/Esalq. O estudo aplica a proposta a um caso real de uma empresa de autopeças, cujo nome não é divulgado.

A proposta: um motor de precificação em BI

A proposta não é uma ferramenta nova nem um software de prateleira. É uma arquitetura de dados e regras que transforma a precificação de uma tarefa manual e periódica em um processo contínuo e auditável. Ela tem quatro camadas.

1. Dados centralizados em uma base única. Planilhas de custo, cadastros do ERP, dados das APIs dos marketplaces e as fontes tributárias passam a alimentar uma única base. A regra é simples: cada informação tem uma origem oficial e um responsável, e nenhuma decisão de preço é tomada a partir de uma cópia local.

2. Modelo dimensional com custo total por SKU e por canal. Sobre essa base, um modelo dimensional organiza os fatos (vendas, custos, tarifas) em torno das dimensões que importam para a decisão: produto, canal, período e tipo de cliente. O resultado é o custo total de cada combinação SKU × canal, incluindo frete, comissão, tributos e o custo das devoluções.

3. Preço mínimo e preço sugerido calculados automaticamente. Com o custo total disponível, o motor calcula para cada SKU em cada canal o preço mínimo, abaixo do qual a venda não cobre o próprio custo, e o preço sugerido, que entrega a margem-alvo definida pela empresa. Quando o preço praticado cruza o mínimo, o sistema gera um alerta por SKU e canal.

4. Painéis em Power BI que mostram onde a margem é ganha e onde é perdida. A camada de consumo traduz o modelo em leitura gerencial: quais canais, categorias e itens sustentam a margem, e quais a consomem. O foco não é o volume vendido, e sim a margem de contribuição de cada venda.

A lógica do preço mínimo

O coração do motor é uma fórmula conhecida, aplicada de forma sistemática. Os custos em reais por unidade ficam no numerador; os custos que incidem em percentual sobre o preço ficam no denominador:

Preço mínimo = (custo da mercadoria + frete por unidade + tarifa fixa) ÷ [1 − (comissão % + tributos % + outras despesas variáveis %)]

Um exemplo com valores ilustrativos, que não fazem parte dos resultados do estudo:

Componente Valor ilustrativo
Custo da mercadoria R$ 80,00
Frete por unidade R$ 12,00
Comissão do canal 14%
Tributos sobre a venda 9%
Outras despesas variáveis 4%
Preço mínimo R$ 92,00 ÷ 0,73 = R$ 126,03

A conta em si não é sofisticada. O que muda com o BI é a escala e a frequência: a mesma fórmula roda para todas as combinações de SKU e canal, todos os dias, com os parâmetros atualizados na origem.

O que o caso mostrou

A aplicação ao caso real produziu quatro resultados, publicados no artigo:

  • 18,17% das operações analisadas tinham margem negativa, ou seja, o preço praticado não cobria o custo total daquela venda naquele canal.
  • R$ 3,1 milhões em vendas ficaram sem cobertura do custo total no período analisado.
  • A tabela central de custos atingiu 98% de conformidade, o que dá base confiável para o cálculo automático do preço.
  • A reanálise manual de preços, que levava de 2 a 4 dias, foi substituída por atualização diária.

O primeiro número é o mais importante. Quase uma em cada cinco operações vendia abaixo do custo total, e isso não aparecia na leitura consolidada do resultado. A média da empresa escondia os itens e canais que operavam no vermelho.

Por que o problema é estrutural, e não pontual

A conclusão central do estudo é que a margem negativa não era fruto de erros isolados de cadastro ou de uma promoção mal calibrada. Era consequência da forma como a informação estava organizada. Quando custo, tarifa, frete e tributo vivem em lugares diferentes, a empresa não consegue calcular o custo total de cada venda, e portanto não consegue saber quais vendas dão prejuízo.

Corrigir preços um a um não resolve, porque as variáveis continuam mudando. Uma nova tabela de frete, uma mudança de comissão no marketplace ou um reajuste do fornecedor recriam o problema em semanas. A resposta precisa ser estrutural: base única, regra explícita e recálculo automático.

Há também um efeito de gestão. Com o motor em funcionamento, a discussão deixa de ser "qual preço colocar" e passa a ser "em quais canais e itens vale a pena competir". A decisão de mix e de canal ganha a mesma base numérica que a decisão de preço.

Rigor acadêmico aplicado à operação

Um aprendizado pessoal desse trabalho foi o valor de unir rigor acadêmico à prática. O método científico obrigou a explicitar premissas, documentar fontes e medir resultados antes e depois. A operação garantiu que a proposta respondesse a um problema real, com dados reais e restrições reais de tempo e orçamento.

Essa combinação produz algo que nenhum dos dois lados entrega sozinho: uma solução que funciona na rotina e que pode ser auditada, replicada e defendida diante da diretoria ou de uma banca.

Como começar na sua empresa

Não é preciso implantar o motor completo para capturar boa parte do ganho. Uma sequência prática:

  1. Escolha uma origem oficial para cada variável. Custo pela última nota de compra, comissão pelo contrato do canal, frete pela tabela vigente, tributo pela alíquota efetiva informada pelo contador.
  2. Calcule o custo total de cada SKU por canal para os itens de maior giro. Os 50 primeiros já mostram o padrão.
  3. Aplique a fórmula do preço mínimo e compare com o preço praticado.
  4. Meça a proporção de operações com margem negativa. Esse é o seu indicador de partida, comparável ao do estudo.
  5. Automatize a atualização apenas depois que a regra estiver validada. Automatizar uma conta errada só espalha o erro mais rápido.

O artigo completo, com a revisão de literatura, a metodologia e o detalhamento do modelo dimensional, está disponível na Revista Estratégias e Soluções.

Perguntas frequentes

O que é precificação dinâmica em autopeças?

É recalcular o preço de cada item sempre que custo, comissão, frete ou tributo mudam, em cada canal de venda, em vez de revisar a tabela de tempos em tempos. Exige base de dados única e regra de cálculo explícita.

Preciso de Power BI para aplicar o método?

Não. A lógica funciona em qualquer ferramenta que consiga cruzar custo, tarifa e preço por SKU e canal. O Power BI foi a camada de consumo usada no estudo, mas o ganho vem da base única e da regra, não da ferramenta.

Por que a margem negativa não aparece no resultado consolidado?

Porque a média mistura itens e canais muito rentáveis com outros que vendem abaixo do custo total. Só a leitura por SKU e canal revela as operações no vermelho.

Onde ler o artigo completo?

Na Revista Estratégias e Soluções (E&S), no link indicado nas fontes desta página, com revisão de literatura, metodologia e detalhamento do modelo.

Fontes: Revista Estratégias e Soluções: artigo completo

Checklist gratuito de controles internos

Conciliações, custo e preço, calendário fiscal e matriz RACI: onde a margem vaza sem aparecer no DRE.

Baixar o checklist

Continue lendo

Andressa CunhaEconomista e Controller · MBA Data Science e Analytics USP/Esalq. Controladoria de margem e precificação para e-commerce, distribuidoras e sellers de marketplace.